Animais de Poder
Um dos conceitos mais intimamente ligados ao Xamanismo é o de animais de poder. Esse conceito é, também, um dos que vem sendo mais esvaziado do seu caráter e simbolismo original, o qual poucas vezes é explicado.
Entre todas as tribos indígenas, é extremamente difundido o culto aos ancestrais. Segundo alguns pesquisadores, esse culto seria, mesmo, a forma mais primitiva de religiosidade humana, sob a forma de totemismo. Como vimos em outros artigos, o conceito xamânico não distingue entre as várias formas de vida, mas sim considera a Natureza como um conjunto em que todos os seres vivos têm igual importância e estão, de certa forma, irmanados. Dessa maneira, o culto aos ancestrais não precisa ser, necessariamente, um culto a ancestrais humanos. Esses ancestrais não-humanos são chamados totens.
A origem do totemismo pode ser ligada aos ritos de caça de nossos mais longínquos antepassados. Nesses ritos, na fronteira entre a magia e a religião, pinturas e encenações eram feitas para garantir o êxito das caçadas. O caçador vestia-se com a pele do animal que ia caçar, comportava-se como ele para poder se aproximar das manadas. Um verdadeiro pacto era firmado entre os caçadores e os animais, onde os primeiros asseguravam que não matariam além do necessário para a sua subsistência e os segundos se deixavam caçar. Cada tribo se achava, assim, ligada a uma determinada espécie, normalmente abundante na região onde habitava e da qual dependia a sua subsistência.
Em regiões onde diversos grupos humanos coexistiam, acabavam por formar-se vários clãs, cada qual responsável por uma determinada espécie, a qual protegia e pela qual acreditava ser protegida. As espécies de outros clãs, ao contrário, eram consideradas tabu e não eram consumidas, a não ser com consentimento expresso. Dessa maneira, acabava por se estabelecer um equilíbrio que assegurava o ecossistema local contra a matança e o consumo indiscriminado de uma só espécie.
A partir dessa organização quase instintiva, onde a autopreservação ditava a tônica, os conceitos de fundo mítico e religioso foram se aprofundando. Um mito de uma tribo norte-americana conta de um búfalo que ensina a uma índia uma dança que deveria ser feita antes da caçada. Entre os ainos, do Japão, havia o costume de criar um filhote de urso até uma determinada idade, com todo o conforto, e depois sacrificá-lo, para que ele dissesse aos espíritos dos ursos como fora bem tratado entre eles. Acredita-se que os primeiros xamãs foram, justamente, aqueles que se acreditava poder entrar em contato com os animais-totem, e destes receber orientação e ensinamentos.
Possuir um animal de poder, portanto, tinha um cunho sagrado, ligado ao clã e a ancestralidade deste. Normalmente, as crianças recebiam e vinham a conhecer os animais do seu clã conforme iam atingindo determinada idade. Havia casos, no entanto, em que determinadas pessoas poderiam ter totens pessoais, adquiridos independentemente dos totens familiares.
Esses totens particulares geralmente surgiam a partir de uma experiência pessoal. Muitas vezes, o indivíduo era atacado por algum animal e sobrevivia, e assim considerava-se que ele tinha um pacto pessoal com aquele animal em particular. Diferentemente do totem do clã, que representava uma espécie, o totem individual era sempre um membro único daquela espécie. Ou seja: se o Lobo era o totem do clã, isso significava que todos os lobos seriam respeitados por aquele clã, mas se um homem tinha um lobo por seu totem individual, era sempre um determinado lobo, que poderia ser um animal real ou imaginário.
Esse animal de poder individual era uma espécie de alter ego, de "outro eu" daquele indivíduo. Considerava-se que ele possuía determinados atributos daquele animal ou mesmo que, em determinadas circunstâncias, poderia assumir a forma do animal para escapar de um perigo. Essa crença, amplamente difundida, está certamente na origem de todas as lendas sobre licantropia.
O conceito de animal de poder que vem sendo difundido em sites e workshops sobre Xamanismo está certamente muito mais ligado a essa noção de animal pessoal do que àquela de totem coletivo. Porém, isso vem sendo feito de uma forma bastante arrefecida, onde o que se procura passar é a idéia de que cada pessoa tem o seu animal de poder, de uma forma muito semelhante ao que, em outro contexto, se chamaria de "anjo da guarda". Ao invés de uma experiência de cunho traumático, na linha divisória entre a fantasia e a realidade, entre a vida e a morte, o que se faz hoje é uma simples meditação ao som de tambores para se encontrar esse suposto "guia benevolente", que estaria apenas nos aguardando do outro lado de uma caverna.
É óbvio que o que se encontra, nessas práticas modernas, nada mais é do que uma representação de nosso próprio ego, ou de nossa força interior, figurada por um animal. Vemos os animais que gostaríamos de ser, cujas qualidades que atribuímos gostaríamos de ter. Não é à toa que os "animais de poder" adquiridos dessa maneira sempre são animais imponentes, para os quais o pretenso xamã que orienta a prática se encarrega de, imediatamente, dar um significado pomposo. Obviamente, ninguém representa sua própria força interior por um caracol ou uma barata, mas sempre por falcões, cavalos brancos e panteras.
Apesar disso, essa prática poderia ser válida se esclarecimentos simples como os que eu coloquei acima fossem dados. Se aqueles que participam de uma "vivência xamânica" de final de semana fossem corretamente orientados, poderiam partir desses símbolos do seu inconsciente para, algum dia, vir a descobrir a sua verdadeira força animal, aquele ponto do seu próprio passado onde trocou os dentes e garras, tantas vezes úteis, por um comportamento dito civilizado, porém apartado da Natureza.
Entre todas as tribos indígenas, é extremamente difundido o culto aos ancestrais. Segundo alguns pesquisadores, esse culto seria, mesmo, a forma mais primitiva de religiosidade humana, sob a forma de totemismo. Como vimos em outros artigos, o conceito xamânico não distingue entre as várias formas de vida, mas sim considera a Natureza como um conjunto em que todos os seres vivos têm igual importância e estão, de certa forma, irmanados. Dessa maneira, o culto aos ancestrais não precisa ser, necessariamente, um culto a ancestrais humanos. Esses ancestrais não-humanos são chamados totens.
A origem do totemismo pode ser ligada aos ritos de caça de nossos mais longínquos antepassados. Nesses ritos, na fronteira entre a magia e a religião, pinturas e encenações eram feitas para garantir o êxito das caçadas. O caçador vestia-se com a pele do animal que ia caçar, comportava-se como ele para poder se aproximar das manadas. Um verdadeiro pacto era firmado entre os caçadores e os animais, onde os primeiros asseguravam que não matariam além do necessário para a sua subsistência e os segundos se deixavam caçar. Cada tribo se achava, assim, ligada a uma determinada espécie, normalmente abundante na região onde habitava e da qual dependia a sua subsistência.
Em regiões onde diversos grupos humanos coexistiam, acabavam por formar-se vários clãs, cada qual responsável por uma determinada espécie, a qual protegia e pela qual acreditava ser protegida. As espécies de outros clãs, ao contrário, eram consideradas tabu e não eram consumidas, a não ser com consentimento expresso. Dessa maneira, acabava por se estabelecer um equilíbrio que assegurava o ecossistema local contra a matança e o consumo indiscriminado de uma só espécie.
A partir dessa organização quase instintiva, onde a autopreservação ditava a tônica, os conceitos de fundo mítico e religioso foram se aprofundando. Um mito de uma tribo norte-americana conta de um búfalo que ensina a uma índia uma dança que deveria ser feita antes da caçada. Entre os ainos, do Japão, havia o costume de criar um filhote de urso até uma determinada idade, com todo o conforto, e depois sacrificá-lo, para que ele dissesse aos espíritos dos ursos como fora bem tratado entre eles. Acredita-se que os primeiros xamãs foram, justamente, aqueles que se acreditava poder entrar em contato com os animais-totem, e destes receber orientação e ensinamentos.
Possuir um animal de poder, portanto, tinha um cunho sagrado, ligado ao clã e a ancestralidade deste. Normalmente, as crianças recebiam e vinham a conhecer os animais do seu clã conforme iam atingindo determinada idade. Havia casos, no entanto, em que determinadas pessoas poderiam ter totens pessoais, adquiridos independentemente dos totens familiares.
Esses totens particulares geralmente surgiam a partir de uma experiência pessoal. Muitas vezes, o indivíduo era atacado por algum animal e sobrevivia, e assim considerava-se que ele tinha um pacto pessoal com aquele animal em particular. Diferentemente do totem do clã, que representava uma espécie, o totem individual era sempre um membro único daquela espécie. Ou seja: se o Lobo era o totem do clã, isso significava que todos os lobos seriam respeitados por aquele clã, mas se um homem tinha um lobo por seu totem individual, era sempre um determinado lobo, que poderia ser um animal real ou imaginário.
Esse animal de poder individual era uma espécie de alter ego, de "outro eu" daquele indivíduo. Considerava-se que ele possuía determinados atributos daquele animal ou mesmo que, em determinadas circunstâncias, poderia assumir a forma do animal para escapar de um perigo. Essa crença, amplamente difundida, está certamente na origem de todas as lendas sobre licantropia.
O conceito de animal de poder que vem sendo difundido em sites e workshops sobre Xamanismo está certamente muito mais ligado a essa noção de animal pessoal do que àquela de totem coletivo. Porém, isso vem sendo feito de uma forma bastante arrefecida, onde o que se procura passar é a idéia de que cada pessoa tem o seu animal de poder, de uma forma muito semelhante ao que, em outro contexto, se chamaria de "anjo da guarda". Ao invés de uma experiência de cunho traumático, na linha divisória entre a fantasia e a realidade, entre a vida e a morte, o que se faz hoje é uma simples meditação ao som de tambores para se encontrar esse suposto "guia benevolente", que estaria apenas nos aguardando do outro lado de uma caverna.
É óbvio que o que se encontra, nessas práticas modernas, nada mais é do que uma representação de nosso próprio ego, ou de nossa força interior, figurada por um animal. Vemos os animais que gostaríamos de ser, cujas qualidades que atribuímos gostaríamos de ter. Não é à toa que os "animais de poder" adquiridos dessa maneira sempre são animais imponentes, para os quais o pretenso xamã que orienta a prática se encarrega de, imediatamente, dar um significado pomposo. Obviamente, ninguém representa sua própria força interior por um caracol ou uma barata, mas sempre por falcões, cavalos brancos e panteras.
Apesar disso, essa prática poderia ser válida se esclarecimentos simples como os que eu coloquei acima fossem dados. Se aqueles que participam de uma "vivência xamânica" de final de semana fossem corretamente orientados, poderiam partir desses símbolos do seu inconsciente para, algum dia, vir a descobrir a sua verdadeira força animal, aquele ponto do seu próprio passado onde trocou os dentes e garras, tantas vezes úteis, por um comportamento dito civilizado, porém apartado da Natureza.


