CURTO E GROSSO - A diferença entre ficar e ficar
Encontrei, na praia, um amigo das antigas. Ele chegou com a filha, uma saudável rapariga, de 15 anos, indo pros 16. Entreaberto botão, entrefechada rosa. Colocaram as cadeiras ao lado da minha, mas ele não tava numa de falar muito. Quando a menina foi dar um mergulho. Ele olhou pra ela, pra mim e finalmente falou: - Aonde vamos parar?
Supondo que se referisse ao País, falei:
-Tu que é economista não sabe, que dirá eu?
-Tô falando do País, não. É essa geração que tá aí.
Olhei ao redor e tornei: - Aí?! Aí, onde?
E ele: - Pô, meu irmão. Aí, aqui, em todo lugar. Tá vendo minha filha ali?.
Procurei a moça, mas não a vi, que o mar tava coalhado de banhistas. Menti, dizendo que sim. Meu amigo esvaziou o copo de cerva de um único gole, e falou:
-Dá pra acreditar que ela...? - Olhou pra areia, me encarou nos olhos e repetiu: -Dá pra acreditar que ela...?
Dei de ombros, dá pra acreditar que ela o quê?.
-Não é mais... Dá pra acreditar?
Pra encurtar aquele papo cheio dos mistérios, fui curto e grosso, e arrisquei: - Não é mais virgem?
Meu amigo me olhou firme nos olhos e balançou a cabeça, em sinal afirmativo. Não fosse o semblante tão sisudo e sorumbático do cara, eu teria rido, me contive, e comentei: -Normal, são outros tempos.
Ele me interompeu: -Normal porque tu não tem filha. Vai ver, tu é capaz de dar ponto àqueles sujeitos do Bonde do Tigrão, né? Também, as preparadas, as popuzadas, as cachorras, as turbinadas, pra quem eles passam cerol nas mãos, não são tuas filhas.
Resumindo. Meu amigo, assim meio sem querer e querendo, passou a ler o diário da filha. Em várias entradas ela confidenciava que havia 'ficado' com o rapaz com quem foi à festinha. Porém, meu amigo, cuja gíria mais recente é 'bicho' e 'papo furado' só veio descobrir o atual significado de 'ficar' depois que a filha já havia conjugado o verbo com metade dos rapazes do quarteirão.
-Se no tempo da gente as festinhas se chamavam assustados, as de hoje deveriam ser chamadas de O Dia do Fico. É todo mundo ficando com todo mundo, e a gente ficando pra trás.
Esse amigo conta que teve aquela obrigatória conversa com filha, temendo que, com aquela 'ficadaria' toda, ele acabasse ficando avô. A moça, que se chama Maria, explicou ao pai que 'ficar' não significava exatamente 'ficar' com fulaninho. Bem, poderia tanto ser 'ficar', como apenas 'ficar'. Ou seja, há uma sutil diferença entre 'ficar' e 'ficar', a qual, obviamente o pai não entendeu (e, confesso, nem eu). Ele diz que insistiu. encarou a filha e falou: - Maria, sofismas à parte, nestas ficadas suas você 'ficou' realmente, ou apenas 'ficou'?
Sabe o que Maria respondeu ao meu amigo: "Velho, fique frio".
Ele diz que não ficou frio, ficou foi gelado. E o pior é que, na mesma semana, mexendo no guarda-roupas do quarto de casal descobriu que a patroa dele também mantém um diário: - Esse eu não abro nem pra ir pro céu. Aliás só me falta descobrir que Marta aderiu a esses modernismos de 'ficar', eu fico é louco de vez.
A ex-virgem Maria saía do mar, antes que ela se aproximasse, falei pro meu amigo: - Velho, diário é feito aquelas tumbas do faraó em filme B. Nunca deveriam ser abertas, mas são, e quem abre sempre acaba mal.
Supondo que se referisse ao País, falei:
-Tu que é economista não sabe, que dirá eu?
-Tô falando do País, não. É essa geração que tá aí.
Olhei ao redor e tornei: - Aí?! Aí, onde?
E ele: - Pô, meu irmão. Aí, aqui, em todo lugar. Tá vendo minha filha ali?.
Procurei a moça, mas não a vi, que o mar tava coalhado de banhistas. Menti, dizendo que sim. Meu amigo esvaziou o copo de cerva de um único gole, e falou:
-Dá pra acreditar que ela...? - Olhou pra areia, me encarou nos olhos e repetiu: -Dá pra acreditar que ela...?
Dei de ombros, dá pra acreditar que ela o quê?.
-Não é mais... Dá pra acreditar?
Pra encurtar aquele papo cheio dos mistérios, fui curto e grosso, e arrisquei: - Não é mais virgem?
Meu amigo me olhou firme nos olhos e balançou a cabeça, em sinal afirmativo. Não fosse o semblante tão sisudo e sorumbático do cara, eu teria rido, me contive, e comentei: -Normal, são outros tempos.
Ele me interompeu: -Normal porque tu não tem filha. Vai ver, tu é capaz de dar ponto àqueles sujeitos do Bonde do Tigrão, né? Também, as preparadas, as popuzadas, as cachorras, as turbinadas, pra quem eles passam cerol nas mãos, não são tuas filhas.
Resumindo. Meu amigo, assim meio sem querer e querendo, passou a ler o diário da filha. Em várias entradas ela confidenciava que havia 'ficado' com o rapaz com quem foi à festinha. Porém, meu amigo, cuja gíria mais recente é 'bicho' e 'papo furado' só veio descobrir o atual significado de 'ficar' depois que a filha já havia conjugado o verbo com metade dos rapazes do quarteirão.
-Se no tempo da gente as festinhas se chamavam assustados, as de hoje deveriam ser chamadas de O Dia do Fico. É todo mundo ficando com todo mundo, e a gente ficando pra trás.
Esse amigo conta que teve aquela obrigatória conversa com filha, temendo que, com aquela 'ficadaria' toda, ele acabasse ficando avô. A moça, que se chama Maria, explicou ao pai que 'ficar' não significava exatamente 'ficar' com fulaninho. Bem, poderia tanto ser 'ficar', como apenas 'ficar'. Ou seja, há uma sutil diferença entre 'ficar' e 'ficar', a qual, obviamente o pai não entendeu (e, confesso, nem eu). Ele diz que insistiu. encarou a filha e falou: - Maria, sofismas à parte, nestas ficadas suas você 'ficou' realmente, ou apenas 'ficou'?
Sabe o que Maria respondeu ao meu amigo: "Velho, fique frio".
Ele diz que não ficou frio, ficou foi gelado. E o pior é que, na mesma semana, mexendo no guarda-roupas do quarto de casal descobriu que a patroa dele também mantém um diário: - Esse eu não abro nem pra ir pro céu. Aliás só me falta descobrir que Marta aderiu a esses modernismos de 'ficar', eu fico é louco de vez.
A ex-virgem Maria saía do mar, antes que ela se aproximasse, falei pro meu amigo: - Velho, diário é feito aquelas tumbas do faraó em filme B. Nunca deveriam ser abertas, mas são, e quem abre sempre acaba mal.


