O Amplo Conceito de Misticismo

Submetido por merlin em 2006-03-28 20:54:43 com as tags .
A grande maioria das ordens e fraternidades esotéricas e iniciáticas costuma definir o que é ser um místico de uma forma muito restrita: uma pessoa que busca a Deus. Este é um resquício religioso do qual essas organizações não conseguiram - e talvez por conveniência nem tentaram - se livrar. Com isso ficam restritas a um círculo teúrgico - queiram o não -, mesmo se tiverem feito expurgo do teurgismo. Esse expurgo se mostra necessário porque a teurgia, em si, é extremamente limitante, mesmo que se aponha elasticidade ao conceito de Deus. Não adianta, por exemplo, se insistir em que há uma diferenciação "fundamental" entre os conceitos religioso de Deus (dogmático e consequentemente tabu) e esotérico - Deus como experiência pessoal de cada um -, porque no fundo o ponto focal é exatamente o mesmo: a suposição (inargüivel) de que existe uma Divindade imaginada, originadora da realidade e disciplinadora da atualidade. O conceito de Misticismo é muito mais amplo do que o meramente circunscrito a esta limitação. Conseqüentemente há vários tipos de místicos e nem todos necessariamente buscam a Deus.

Fundamentalmente, o místico é perscrutador do Oculto, uma espécie de cientista que trabalha não apenas com comprovações mas também é principalmente com insights. Tanto o cientista como o místico podem se servir da intuição para estabelecerem uma meta de pesquisa a ser atingida e trabalham com suposições. O cientista coloca de lado tudo o que não for comprovável racionalmente, enquanto o místico prossegue no caminho que a intuição lhe mostrou,m mesmo que uma comprovação científica da sua viabilidade não esteja disponível no momento. Ele sabe - é uma certeza interior, inabalável, que não vem de algo como a fé mas da harmonização real com algo percebido - que cedo ou tarde suas constatações por intuição serão referendadas pela ciência, dependendo isto única e tão somente do avanço científico e do desenvolvimento tecnológico.

Há, assim, muitas e muitas espécies de místico. Um artista - pintor, escultor, poeta, escritor, músico instrumentista, cantor, dançarino ou ator - pode ser um místico em sua atividade e como pessoa, sem com isso estar buscando a Deus exatamente. Seu misticismo consiste em expressar por imagens, formas, sons, palavras, gestos e assunções uma experiência interior na qual se harmoniza com os Planos Superiores do Cósmico, sejam eles lá o que forem e tenham lá a natureza que tiverem, compreensível ou não pela racionalidade ou pela aquisição de conhecimento por osmose. Um religioso que arde em fervor místico harmonizando-se com a figura de seu avatar ou diretamente com Deus é, evidentemente, também um místico totalmente assumido. Um esoterista que busca pela meditação a ascensão a Planos Superiores também é, evidentemente, um místico na total acepção da palavra. Há místicos que fundem em um produto final suas experiências artísticas e iniciáticas e, para citar um exemplo, mencionarei Mozart, que era Maçom.

De uma forma geral pode-se dizer que o místico é um ser harmonizado com o Cósmico. Ele ascende a Planos Superiores em vários graus de ascensão e também pode descer a Planos Inferiores em várias gradações de penetração na condição abissal. Basicamente, um místico é uma criatura que caminha pelo mundo sob as injunções da Dualidade mas procura se situar acima das Polaridades. Uma definição clássica do caminho místico, estabelecida por místicos, é que a senda do Misticismo é como a tortuosa estrada que leva ao cume de uma montanha. Conforme se vai subindo a visão vai-se ampliando. O cenário não muda, mas agora pode ser apreciado de maneira mais ampla, mais total. Existe, porém, um grande problema: quando se atinge o cume dessa montanha imaginária constata-se que se está sozinho, com nuvens abaixo toldando a visão do mundo, mas que ao mesmo tempo pode-se ver melhor o Disco Solar. Os místicos inseridos em um contexto religioso percorrem esse caminho intuitivamente, guiados pelo fervor; os místicos não religiosos fazem tal ascensão guiados igualmente pela intuição, mas com uma grande diferença: eles estão - ou pelo menos deveriam estar - no total controle do processo.

É de praxe fazer-se distinção entre místicos e ocultistas quando se aborda o assunto. Na verdade, misticismo e ocultismo são funções complementares que devem estar apostas a um estudante sincero de esoterismo. A Metafísica, que faz parte da Filosofia, é ao mesmo tempo o cerne e o casulo de que os místicos e ocultistas se servem para construir um contexto que sirva para algo. De que adiantariam, em um mundo baseado na interação dos seres, as experiências místicas, iniciáticas e magickas se não houvesse uma forma de apresentá-las como insumo para outras coisas? Seria um processo de finalidade estacionária, isto é: natimorto. De que adianta, por exemplo, você se tornar eremita se isso não servir para a descrição de métodos que possam ser adotados por outras criaturas? Toda vez que alguém faz isto está ajudando os outros a queimarem etapas em um caminhada que é sempre difícil e cheia de percalços e armadilhas. Nesse contexto o místico segue uma intuição e o ocultista vasculha o Oculto, às vezes sem intuições e utilizando métodos já consagrados. Ambos, místico e ocultista, podem a qualquer momento, adotar novos métodos e declarar obsoletos os que vinham sendo utilizados. É a isso que se chama evolução espiritual.

Na junção do conhecimento adquirido com o saber intuído o místico pode se tornar um ocultista, tanto no sentido de perscrutar o oculto como no de manipular forças da Natureza. Da mesma forma pode o ocultista assumir uma vertente mística e produzir, digamos, um ritual mais propício à consecução dos fins a que se propõe.

Todas essas possibilidades podem se materializar como caminho, com Deus ou sem Deus. Para quem tem a mente aberta não há uma verdade absoluta, mesmo porque a verdade, como já tive ocasião de expor em outro ensaio, é meramente um consenso sobre vários pontos. Assim temos que a concepção religiosa de que "sem Deus nada é possível" deve ser respeitada, bem como a sua antítese, que seria um slogan para o místico-ateu, deve igualmente merecer todo o respeito. Ambas são aspectos de uma mesma verdade em um universo sob a égide da Dualidade. O que é preciso ter em mente - e isto se aplica tanto ao místico como ao ocultista - é que torna-se necessária, como coisa fundamental, uma revisão periódica de posições assumidas e de conceitos adotados e/ou externados. Cada um deve fazer o que quiser com isto, destruindo e reciclando crenças, mas o que não se deve fazer é considerar etapas e produções do passado como rejeito metafísico. Eu, por exemplo - e aí só posso falar de mim mesmo - costumo rever periodicamente minhas posições e tento extrair dos mitos o símbolo místico que ele contenha (ou possa conter) e uso, então, o ocultismo, para que esse símbolo não venha a se transformar em um mero signo. Em etapas anteriores da minha vida mística, por exemplo, produzi peças que hoje certamente não produziria, mas não as descarto como rejeito por considerar que são de utilidade para compreensão em outros níveis de entendimento. Desses níveis não se pode dizer com segurança que estejam abaixo ou estejam acima, porque o referencial seria sempre o ponto no qual quem julga se encontra (no momento). Portanto todos os níveis de compreensão na prática se equivalem e o importante é que propiciem Paz, Luz, Vida, Amor, Justiça, Equilíbrio, Harmonia e Liberdade para todos os seres.

Cada místico, cada ocultista, cada criatura (viva ou morta neste Plano) é o centro de um círculo de poder com capacidade de interagir com as Leis Cósmicas. Dessa interação, da maneira como ela é feita, é que pode nascer algum tipo de poder que seja benéfico para todos. É por esse processo que os avatares, por exemplo, se constituem a si próprios sem que algo possa destruí-los. Um avatar pode ser assassinado, como Spitman Zaratustra (Zoroastro), por exemplo, mas o seu legado é praticamente imune à Lei da Entropia, por estar harmonizado com uma Legislação Cósmica de natureza superior àquela. Existem conceitos-chave como, por exemplo, o de que qualquer ser humano pode ser um Buda. São contribuições como esta à História da Humanidade que tornam tão amplos o conceito de Misticismo e a descrição do que vem a ser exatamente um místico. Um místico pode ser versátil e interagir em vários níveis de compreensão produzindo simultaneamente peças para cada um desses níveis, como pode considerar que está em uma escalada na qual as etapas transpostas devem ser descartadas. Isso varia de pessoa para pessoa, conforme a natureza de cada uma. Não se pode traçar uma definição-mestra, como se se estivesse lidando com um mero verbete e enunciar "um místico deve ser assim e assado". Realmente não se pode fazer isso. O misticismo é que é uma experiência individual e não apenas Deus é que a é. Deus é um detalhe em um contexto muito amplo. Um ponto focal, para um determinado nível-geral de compreensão. O místico - e por extensão o ocultista - transcendem tal limitação e é exatamente para isso que servem as iniciações.
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