O conto dentro do conto

Submetido por merlin em 2006-05-05 23:54:33 com as tags .
Havia meses que vivia assustado devido aos terríveis pensamentos de aniquilição que o atormentavam... sobretudo de noite. Deitava-se receando não ver o amanhecer do dia seguinte e não conseguia adormecer até que o sol despontasse, às vezes uma hora apenas antes de ter de se levantar para ir trabalhar. Quando soube que o Iluminado passaria a noite nos arredores do povoado, deu-se conta de que tinha nas suas mãos uma oportunidade única, já que não era frequente que os viajantes passassem nem sequer por perto desse povoado perdido nas montanhas da Caldeia.

A fama precedia o misterioso visitante e, embora ninguém o tivesse visto, dizia-se que o mestre tinha resposta para todas as perguntas. Por isso, nessa madrugada, sem que ninguém de sua casa o notasse, foi vê-lo à tenda que, segundo o tinham informado, ele montara junto ao rio.

Quando chegou, o sol acabava de despontar no horizonte.

Encontrou o Iluminado a meditar.

Esperou respeitosamente uns minutos até que o mestre notasse a sua presença...

Nesse momento e como se estivesse à sua espera, virou-se para ele, com uma expressão calma e ollhou-o nos olhos em silêncio.

- Mestre, ajuda-me. - disse o homem. - Pensamentos terríveis assaltam as minhas noites e não tenho paz nem ânimo para descansar e desfrutar das coisas que vivo. Dizem que tu resolves tudo. Ajuda-me a escapar desta angústia...

O mestre sorriu e respondeu-lhe: - Vou contar-te um conto.

Um homem rico mandou o seu criado ao mercado à procura de alimentos. Mas pouco depois de ali chegar, este cruzou-se com a morte, que o olhou fixamente nos olhos.

o criado empalideceu de susto e saiu a correr, deixando para trás as compras e a mula. A arquejar, chegou a casa do seu amo.

- Amo, amo! Por avor, preciso de um cavalo e de algum dinheiro para sair agora mesmo da cidade... Se sair imediatamente talvez chegue a Tamur antes do anoitecer... Por favor, amo, por favor!

O senhor perguntou-lhe o motivo de um pedido tão urgente e o criado contou-lhe aos tropeções o seu encontro com a morte.

O dono da casa pensou um instante e, apresentando-lhe uma bolsa de moedas, dise-lhe:

-Está bem. Seja. Vai-te embora. Leva o cavalo preto, que é o mais rápido que eu tenho.

- Obrigado, amo. - disse o servo. E, depois de lhe beijar as mãos, correu até aos estábulo, montou o cavalo e partiu velozmente até à cidade de Tamur.

Quando o servo já estava fora do alcance da vista, o homem rico caminhou até ao mercado à procura da morte.

- Porque é que assustaste o meu servo? - perguntou-lhe ele quando a viu.

- Assustá-lo, eu? - perguntou a morte.

- Sim - disse o homem rico. - ele disse-me que hoje se tinha cruzado contigo e que olhaste para ele de um modo ameaçador.

- Eu não olhei para ele de um modo ameaçador. - explicou a morte. - Olhei para ele surpreendida. Não esperava vê-lo aqui esta tarde, porque está estabelecido que devo recolhê-lho em Tamur esta noite!


- Entendes? - perguntou o Iluminado.

- Claro que entendo, mestre. Tentar escapar aos maus pensamentos é sair à procura deles. Fugir da morte é ir ao seu encontro.

- É isso.

- Tenho tanto que te agradecer, mestre... - disse o homem. - Sinto que a partir desta mesma noite dormirei tão tranquilo ao recordar este conto que me levantarei sereno cada manhã...

- A partir desta noite... - interrompeu o ancião. - não haverá mais manhãs.

- Não entendo. - disse o homem.

- Então, não entendeste o conto.

O homem, surpreendido, olhou para o Iluminado e viu que a expressão do seu rosto...

já não era a mesma...
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