o Fazedor de homens

Submetido por merlin em 2006-03-30 07:37:15 com as tags .

I

Todo homem é uma ilha...  É bom ser uma ilha distante  tanto quanto é bom ser um homem. 
Todo homem possui uma ponte  pois é preciso sair da ilha, seguro.  A ponte de um homem é um braço estendido. 
Todo homem é um mundo.  O mundo roda no sistema egocêntrico  de suas realidades,  pequenos alumbramentos,  medos e coragens. 
E quando o homem encara o mundo e se depara  - homem-mundo,  mundo-homem,  volta à ilha:  Todo homem ama sua ilha. 
II 
O homem faz o homem.  E porque fez o homem, sem nem o homem querer  aufere direitos do homem.  Diz a ele: Cresça!  E ele fica mais alto. 
Diz ao homem: Trabalhe!  E ele usa o corpo.  Diz ao homem: Viva!  E ele respira e existe.  Diz ao homem: Ame!  E ele não sabe como.  Mas diz ao homem: Procrie!  E ele faz homens. 
Um dia ele morre.  Se a vida foi longa para viver - é curta para morrer - porque o homem não fez, não escolheu,  não pensou nada. 
III 
O que faz um homem diferente de outro homem  é o que ele pensa.  O que o transforma, também,  de um simples fazedor de homens,  num criador de homens. 
Todo homem é uma vontade.  E se deixa de ser vontade  teme a perda de sua posse.  Todo homem é uma consciência.  Nela inclui o seu saber  e a parte maior do não saber,  e se aceita o fato, é com ela que ele se entende. 
Todo homem é seu corpo.  E sabe dele em contraste com outro corpo,  tal é a sua medida.  Como também, a medida de um homem é a sua carência:  porque é assim que ele se assume,  porque é assim que ele se liberta. 
Quanto mais ele precisa  mais ele é maior. E dá.  Pede. Reivindica. Exige, quanto pode.  Luta e sofre. 
Todo homem quer deixar sua ilha.  Temeroso de ter que voltar um dia, entretanto,  não destrói as pontes.  Enquanto isso, a ilha fica ali, só ilha.  A ponte fica ali, só ponte.  E o homem fica ali, só homem.
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