o Fazedor de homens
Submetido por merlin em 2006-03-30 07:37:15
com as tags Carlos Drummond de Andrade poema.
I
Todo homem é uma ilha... É bom ser uma ilha distante tanto quanto é bom ser um homem.
Todo homem possui uma ponte pois é preciso sair da ilha, seguro. A ponte de um homem é um braço estendido.
Todo homem é um mundo. O mundo roda no sistema egocêntrico de suas realidades, pequenos alumbramentos, medos e coragens.
E quando o homem encara o mundo e se depara - homem-mundo, mundo-homem, volta à ilha: Todo homem ama sua ilha.
II
O homem faz o homem. E porque fez o homem, sem nem o homem querer aufere direitos do homem. Diz a ele: Cresça! E ele fica mais alto.
Diz ao homem: Trabalhe! E ele usa o corpo. Diz ao homem: Viva! E ele respira e existe. Diz ao homem: Ame! E ele não sabe como. Mas diz ao homem: Procrie! E ele faz homens.
Um dia ele morre. Se a vida foi longa para viver - é curta para morrer - porque o homem não fez, não escolheu, não pensou nada.
III
O que faz um homem diferente de outro homem é o que ele pensa. O que o transforma, também, de um simples fazedor de homens, num criador de homens.
Todo homem é uma vontade. E se deixa de ser vontade teme a perda de sua posse. Todo homem é uma consciência. Nela inclui o seu saber e a parte maior do não saber, e se aceita o fato, é com ela que ele se entende.
Todo homem é seu corpo. E sabe dele em contraste com outro corpo, tal é a sua medida. Como também, a medida de um homem é a sua carência: porque é assim que ele se assume, porque é assim que ele se liberta.
Quanto mais ele precisa mais ele é maior. E dá. Pede. Reivindica. Exige, quanto pode. Luta e sofre.
Todo homem quer deixar sua ilha. Temeroso de ter que voltar um dia, entretanto, não destrói as pontes. Enquanto isso, a ilha fica ali, só ilha. A ponte fica ali, só ponte. E o homem fica ali, só homem.


