Paganismo Fast-Food

Submetido por merlin em 2006-05-11 17:05:15 com as tags .
Tempos atrás, numa lista de Internet da qual participo, uma moça manifestou-se indignada por ter visto num livro o autor dizer que os celtas praticavam sacrifícios humanos. "Como era possível acusar um povo tão evoluído, tão espiritualizado, de uma barbaridade dessas" era, em linhas gerais, o cerne de sua revolta. Para eterno espanto dela, nós não somente confirmamos os sacrifícios humanos como falamos ainda do hábito de colecionar os crânios dos inimigos e até de sacrificar rainhas para serem enterradas com reis mortos.

O caso deu início a um breve debate sobre a celtice, uma mistura de idealizações com falsidades estimuladas por romancistas e escritores "esotéricos" sem a mais remota base histórica. Constatamos, com certa tristeza, que havia também uma egiptice, uma greguice e mais uma penca de outras ices, que conduziam a uma mesma e lamentável conclusão: as pessoas estão adentrando caminhos espirituais baseadas nas fontes menos confiáveis possíveis e sem uma mínima base cultural que lhes sirva de salvaguarda.

O neo-paganismo não é neo à toa. O que Gardner e Valiente apresentaram ao mundo nos anos 1950 era uma adaptação para os tempos atuais de crenças e práticas religiosas dos povos antigos, preservadas de forma fragmentada nas mais diferentes tradições mágicas. Mas é uma visão contemporânea. Projetar nesses povos a nossa moralidade atual é aquilo que nós chamamos em História de anacronismo.

De quem é a culpa por um caso como este? Da menina, que nunca se preocupou em pesquisar uma fonte embasada a respeito do povo cuja religiosidade pretendia abraçar? Do nosso sistema educacional, que oferece a um número cada vez maior de pessoas um nível de instrução cada dia pior? Um pouco de ambos, certamente, mas o maior vilão é outro.

Esse tipo de coisa acontece porque criou-se a idéia de que o paganismo - e a Wicca, em particular - é uma coisa mole, "facinha". Compre uma revista na banca da esquina, monte seu altar, faça dois ou três feiticinhos e auto-inicie-se. Para cada autor interessado em explicar o que é a religião e o quanto ela é profunda, há falanges de outros que querem ganhar dinheiro oferecendo fórmulas, receitinhas de feitiços, "rituais milenares" e por aí vai.

O terreno para isso é fértil. De um lado há a ignorância citada acima. Se o conhecimento que as pessoas têm da cultura e da religião celtas vem de livros de ficção (ou, pior ainda, filmes) como "As Brumas de Avalon", é possível empurrar qualquer empulhação. Não me surpreenderia se amanhã alguém dissesse que os celtas dominavam a fissão nuclear e as viagens espaciais.

Do outro lado está a pressa, a sempre maldita pressa, inimiga mortífera de todos que lidam com magia. Paganismo é "ver a grama crescer", é alinhar-se com a Terra, é conhecer-te a ti mesmo. Isso leva tempo. Tempo de aprender a lidar com cristais, tempo de conhecer as plantas e seu poder, tempo de conhecer a magia das cores e da velas, as fases da Lua, os elementos e os elementais etc. Com esse conhecimento, a pessoa cria seus próprios e poderosos feitiços. Mas é mais rápido comprar um livrinho ou procurar na Internet.

Se a pessoa vai cultuar um panteão, pior ainda. Pega algum livrinho que resume num parágrafo milhares de anos de formação de uma egrégora e sai por aí evocando forças que está muito longe de compreender. Como disse uma vez meu sacerdote, acaba "pedindo prosperidade a Seth e misericórdia a Hécate", sem falar na onipresente Lilith, transformada, sabem os Deuses como, numa divindade pagã.

Existe uma saída para essa situação? Sim. Jogar fora o relógio, esquecer o calendário. Lembrar que uma bruxa hereditária passa quase a vida inteira sendo treinada; que num coven sério, com sacerdote de plantão e Livro das Sombras para dar uma colada, um neófito leva pelo menos um ano lunar e um dia entre a dedicação e a iniciação no Primeiro Grau. Acumular a maior quantidade possível de informação sobre todos os assuntos ligados a sua crença - usando o bom senso para filtrá-la. E, principalmente, fugir de qualquer um que diga ou escreva que bruxaria e paganismo são fáceis. Não são, não. Até ficarem naturais há que se estudar muito, praticar muito e conhecer muito a si mesmo. Do contrário, a pessoa vai só gastar vela e desfilar de roupa preta.
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