Religião

Submetido por merlin em 2006-02-03 19:38:00 com as tags .
Religião significa "re-ligação". É aquilo que possibilita ao ser humano religar-se ao Criador, ou seja, que o reconduz para Ele. Assim, por definição, a religião admite que o ser humano tenha deliberadamente se afastado de seu Criador, competindo a ela, portanto, promover uma nova união com Ele.

Apesar de esta definição literal indicar claramente que a religião é uma instituição exclusivamente humana, que procura reconstruir a ponte rompida pelos próprios seres humanos, os fundadores e dirigentes das inúmeras agremiações religiões e seitas procuram aparentar o inverso disso.

A maior parte deles consideram-se pessoas especialmente agraciadas, que através de alguma experiência incomum (geralmente mística) foram incumbidas de trazer luz aos que se perderam. Sua missão, segundo eles próprios, é trazer salvação a todos os desencaminhados, ou seja, todos os que ainda não professam a mesma crença.

Essa concepção de religião é muito danosa, pois quer fazer crer que Deus, o Senhor de Todos os Mundos, necessita mendigar a atenção dos seres humanos, para que estes finalmente consintam serem salvos, sem naturalmente despender nenhum esforço próprio para tanto. Com esforço próprio entende-se aqui o empenho em melhorar interiormente, redirecionando o pensar, o falar e o agir no sentido do bem. Não significa, de maneira alguma, aquilo que os líderes religiosos entendem como esforço.

Recentemente, num programa religioso divulgado pela televisão, o orador dizia enfaticamente que as pessoas precisavam se esforçar caso desejassem obter uma graça. O esforço a que ele se referia, porém, era o de locomover-se até a local de culto para receber uma bênção e deixar lá a respectiva contribuição monetária. E muitas, muitíssimas pessoas, acreditam realmente que isto seja esforço próprio, e que estão assim cumprindo sua parte no "trato". Sua indolência espiritual não as deixa reconhecer o triste e ridículo papel que desempenham dessa maneira.

A religião, tradicional ou recente, é sempre uma instituição exclusivamente humana. Nenhum dos mencionados Preparadores do Caminho, e tampouco Jesus, desejaram fundar uma religião. Os Preparadores do Caminho,trouxeram o saber de que a humanidade precisava para ela mesma poder salvar-se. A Palavra de Jesus foi uma corda de salvação.A Palavra foi e é uma corda. Não é uma escada rolante e muito menos um elevador. Sem esforço próprio, sem uma vontade ardente para o bem e, principalmente, sem agir no sentido do bem, ninguém consegue escalar um milímetro sequer em direção às alturas luminosas.

Toda religião, seita, movimento religioso ou filosófico que exclui o livre-arbítrio do ser humano, e não o guia para a consciência da responsabilidade pessoal em tudo quanto faz, fala e pensa, é prejudicial ao desenvolvimento do espírito. Não se coaduna com a Verdade.

Certa vez tomei conhecimento de um movimento religioso que pregava mais ou menos o seguinte: Jesus, com a morte na cruz, redimiu os seres humanos de seus pecados. Assim, seria uma grave culpa se nos esforçássemos em melhorar, por nós mesmos, nossa conduta, pois Jesus já havia-se desincumbido de nos levar são e salvos para o verdadeiro caminho... Pessoas com um pouco de dignidade certamente não saberão se devem rir ou chorar ao ouvir isso.

Na verdade, não se deve dar muita atenção a conceituações desse tipo, pois os que acreditam ou professam essas coisas merecem realmente ficar presos nessas teias grosseiras de mentira. Aliás, a mentira lhes é muito bem vinda, pois vem ao encontro de sua completa indolência espiritual. Não se preocupam em ser enganados, querem até acreditar nessas coisas, pois assim seus espíritos podem continuar dormindo tranqüilamente, sem precisar inquietar-se com a obrigação de se movimentar. Não, essas tendências religiosas não podem ser consideradas perigosas, pois basta um mínimo de vigilância espiritual para enxergar a realidade.

Perigosas são as tendências ou agremiações que encerram em sua doutrina uma ou mais partículas de Verdade, em meio a um amontoado de concepções falsas. Pessoas de boa índole são atraídas para essa ou aquela particularidade que reconhecem como justa e verdadeira, e não se apercebem de que também são obrigadas a acolher compulsoriamente muitos outros conceitos errados, que estão em completa dissonância com a Verdade.

Por isso é necessário hoje em dia, mais do que nunca, a máxima vivacidade espiritual de que uma criatura pode dispor quando se defronta com uma nova tendência religiosa.

Já para se analisar com isenção as assim chamadas religiões tradicionais não é preciso muito: basta conhecer qual era o ensinamento original pregado pelo respectivo Precursor, e no que este se transformou quando foi "moldado" pelos seguidores e "elevado" à categoria de religião.

Cito aqui as palavras do padre Sérgio Zanella, extraídas do seu livro A Igreja Traída: » Se hoje Cristo voltasse, novamente clamaria e exigiria a franqueza das pessoas, e então nós, membros eclesiásticos, seríamos os primeiros a persegui-Lo, chamá-Lo de endemoninhado, de Belzebu, príncipe dos demônios e O pregaríamos na cruz. Pois, na realidade, é isso que estamos fazendo: negando-O, embora usemos seu nome e preguemos sua mensagem, que, na verdade, não é sua, mas acomodada aos nossos interesses e oportunismos. » (...) Em nome de Cristo e de sua doutrina, a Igreja escraviza o povo com seu poder demagógico, sugando-o e impondo-lhe leis, que dificultam a espontaneidade Criador-criatura. Vejam-se as construções, as campanhas efetuadas pela Igreja, a obrigação da assistência à missa, da comunhão, etc. » Fecha-se nos templos para rezar. Anda com os nobres. Veste-se com toda a pureza exterior de sua indumentária. Lava as mãos antes de comer, observa todo o ritualismo exterior. (...) Foi contra esse exteriorismo falso e demagógico, em prejuízo da interiorização dos valores reais do homem e da adesão humilde e honesta da fé, que Cristo se opôs.

As religiões poderiam e deveriam ser apoios valiosos para o ser humano que anseia por elucidação e desenvolvimento espiritual. Deveriam reeducar com amor e bondade os que se desencaminharam, mostrando como atuam as Leis inflexíveis da Criação, a que todas as criaturas estão sujeitas, e como o ser humano deve comportar-se em relação a elas, para poder colher apenas bênçãos e alegrias no seu caminho de ascensão, através do qual ele próprio tem de seguir.
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