Religiões
De uma forma geral, eu nunca me refiro à "religião", mas sim às "religiões".
No que toca à primeira, embora eu não dê a Jung toda a importância que querem lhe atribuir, creio que ele e outros (como Campbell, para nos atermos aos autores que são de conhecimento geral) perceberam a sua dimensão primitiva, simbólica, que surge do próprio sentimento do homem que se maravilha com o conjunto da existência. Não há como contemplar uma vasta paisagem, ou ver a força de uma tempestade que se aproxima, apenas para citar alguns exemplos mais óbvios, sem experimentar essa religiosidade inata. No entanto, essa é uma religião sem culto, sem mestres ou sacerdotes, sem seguidores e onde cada um é responsável pelos próprios rituais. O único templo e a única coisa sagrada é a natureza, seja ela externa ou interna a nós.
As religiões surgiram certamente desse sentimento primitivo e básico, mas são, primeiro, uma tentativa canhestra de sistematizá-lo e, depois, uma tentativa (geralmente bem sucedida) de canalizá-lo em proveito de um determinado grupo. Sobre algo extremamente simples, criam-se inúmeras teorias extremamente complexas que, dizendo "aproximar o homem de deus" ou dos deuses, o que fazem, realmente, é afastá-lo da noção do divino e do sagrado. A sistematização, a criação de "religiões" sobre a idéia inicial da religião, ou da religiosidade, portanto, tem um único objetivo (mesmo que inconsciente): tornar o religioso manipulável.
Ninguém manipula o por-do-sol, ou a tempestade, ou a ternura que sentimos ao olhar um filhote que acabou de nascer, coisas que nos remetem ao religioso que há em nós. Há de se criar, então, cosmogonias, espíritos e deuses. Há de se inventar mestres, sejam eles um príncipe que se torna asceta, um carpinteiro que vira pregador ou alguém que conversa com os espíritos. Estes são manipuláveis. Deles se pode dizer que fizeram isso ou aquilo, que disseram tal e tal coisa, e principalmente, que determinaram aos homens que ajam de uma certa maneira. O que era religioso e inerente se torna, então, artificial e uma eficiente forma de controle.
Ocorre que, quanto mais complexa e multifacetada uma sociedade se torna, mais variados e mais fortes precisam ser os seus mecanismos de controle. Pierre Clastres já atribuía a necessidade do Estado a um determinado limiar demográfico. Conforme o cidadão comum vai se afastando dos meios de produção e da própria compreensão dos mecanismos que regem a sua sociedade, mais ele tende a precisar de meios de controle que restabeleçam a sua conexão com a realidade. Exagerando o exemplo, nos dias de hoje não há conexão real entre a carne e o boi, entre o ovo e a galinha, entre a fruta e a árvore: enquanto os primeiros estão vinculados ao saco plástico, à embalagem, os outros fazem parte de algo que não é cotidiano. As cadeias naturais se romperam e prospera o que é artificial. Se não sabemos ao menos de onde vêm o que se come, sendo necessário acreditar na sua procedência, imagine então se podemos deixar de acreditar no que nos dizem sobre a nossa própria procedência! Se o cidadão que vive na grande cidade é obrigado a acreditar na existência de coisas que ele nunca viu, como o boi, a galinha ou a árvore, ou em coisas que organizam o que ele nunca viu, como a granja, o frigoríco ou o pomar, ou ainda em coisas completamente abstratas, que regulam o que ele nunca viu, como o Ibama, a Sunab, o Governo, como ele pode deixar de acreditar em alguma das miríades de seitas que procuram, igualmente, organizar, regular e dar existência concreta à sua religiosidade?
Até aqui, temos "as religiões" como organizadoras de um mundo subjetivo e inerente a cada um de nós, o que já lhes confere força suficiente para existir e se multiplicar. Agora, e se o substrato social se encontra abalado? E se o acesso ao boi, ao ovo e à fruta, mesmo que através do supermercado e sob a proteção do Governo, passa a ser escasso, ou privilégio de alguns em detrimento da maioria? Temos a crise, onde a ordem acaba por se subverter e os meios, mesmo ilícitos, para se obter o acesso àqueles bens, se multiplicam.
A crise espiritual acompanha, certamente, a crise material. O acesso ao divino, mesmo que através do templo e sob a proteção da Religião, passa a ser também encarado como privilégio de poucos, e surgem inúmeras alternativas, que prometem dar a todos, democratizar, o que se tornou raro e escasso. Multiplicam-se os vendedores de milagres, contrabandistas da fé, cada qual com a sua própria explicação esdrúxula e cheio de promessas vãs, enquanto engordam o bolso sob a égide do desespero alheio. E, se "as religiões" já eram uma forma de controle, agora elas se multiplicam e se tornam válvula de escape e poço sem fundo.
Note como as crenças se multiplicam em tempos de crise... Durante séculos os gregos nada tiveram além de uma religiosidade difusa, repleta de divindades locais e nenhum tipo de religião organizada e centralizada. Em tempos helênicos, quando as cidades-estado caíam sob o poder imperial, eis que se multiplicam as visões religiosas e místicas, através dos filósofos. Durante séculos, igualmente, os romanos nada tiveram além de uma difusa religião dos antepassados e um culto aos fundadores, na qual cabia com tranquilidade deuses agregados de povos que se incorporavam ao "Império" ou eram conquistados. Quando os valores tradicionais decaíram, os imperadores sucederam aos cônsules e ao Senado, primeiro generalizou-se um culto ao imperador. Posteriormente, quando o próprio Império começou a ruir sob uma sucessão de imperadores pervertidos e incapazes, os credos se multiplicaram e perderam as bases próprias, importando do oriente um Mitra guerreiro e um Jesus helenizado. Durante mil anos, após o fim do Império Romano, o cristianismo imperou absoluto na Europa. As comoções sociais que acompanharam o fim da Idade Média foram suficientes para criar inúmeras dissidências reformistas.
As miríades de seitas que temos, hoje em dia, são igualmente fruto de um processo que se iniciou há pouco mais de um século. O caminho para a espiritualidade no Ocidente, já extremamente artificializado por aquilo que se tornou o cristianismo ao longo dos séculos (e não que ele fosse "bom" ou "natural" no início), deu margem para o surgimento de várias "alternativas", que podem parecer distintas no particular, mas que são semelhantes no geral.
Observe que nenhum dos sistemas religiosos ou místicos que se implantaram no Ocidente difere grandemente de um arcabouço bem particular. Em primeiro lugar, existe sempre uma hierarquia bastante rígida: no topo está deus, ou os deuses, secundados por algum tipo de "seres superiores", que podem ser "mestres ascencionados", "espíritos de luz" ou coisa que o valha, que se dirigem aos simples mortais geralmente através de intermediários humanos, sejam eles "sacerdotes" ou "médiuns". Existe sempre a premissa de que é possível ao simples mortal ascender nessa hierarquia. A forma de ascensão é sempre através da resignação, da mansidão, do "desapego aos valores materiais".
Ora, a mensagem subliminar (e às vezes nem tanto) de todas essas doutrinas é sempre a mesma: a hierarquia e os "seres superiores" existem mesmo no além, os privilégios também, uma vez que só alguns conseguem se comunicar com eles, e a única forma de se conseguir alguma coisa é ficando quietinho, bonzinho e resignado. Despreze os valores materiais, não se revolte se você não tem dinheiro, educação ou comida, pois aquilo que você não tem agora você vai ter "na outra vida". Aliás, os que hoje têm muito, na "outra vida" vão sofrer. Essa é a mensagem de católicos, protestantes, teosofistas, espíritas, budistas mahayanas e qualquer outra coisa que você puder nomear, que fale em paraíso, julgamento final, ou em reencarnação, "evolução espiritual", e assim por diante! Isso é "religião"? Não! Isso são "as religiões": uma forma de manter o povo quieto, crente e sob controle, no âmbito geral, e uma maneira de obter poder pessoal, no âmbito particular, quando os líderes religiosos se proclamam donos da "única verdade" e incitam seu grupo contra os demais.
Nota-se que uma coisa que absolutamente não há, portanto, é a "única verdade". Seria mais coerente se falar em "única mentira", com variantes múltiplas e nomes os mais diversos.
Finalizando, creio que não seria popular, hoje, no Ocidente, uma doutrina que dissesse o seguinte: "não existe deus ou deuses, não há nenhuma hierarquia celeste, não existem fenômenos paranormais nem milagres, não há comunicação com os mortos simplesmente porque não há outra vida. Depois que você morrer, acabou. Não se iluda achando que o 'outro lado' vai ser melhor do que esse, porque não há outro lado. Lute aqui para conseguir o que você quer. A única maneira do homem conhecer alguma coisa sobre a origem da vida ou do universo é através da ciência... portanto, se você tem intenção de aprender, estude. Se você nasceu aleijado, você não está pagando por pecado nenhum, isso foi um simples acaso, portanto, procure tirar o maior proveito possível da sua vida, mesmo com a deficiência. Se você ficou aleijado, isso não foi nenhum castigo, portanto, idem o anterior. Não existe magia; se você não correr atrás do que você quer, você não vai conseguir nada. Se existe desigualdade social, isso não faz parte do plano divino para a sua evolução espiritual, portanto, vá a luta e busque transformar a sociedade, seu otário!"
No que toca à primeira, embora eu não dê a Jung toda a importância que querem lhe atribuir, creio que ele e outros (como Campbell, para nos atermos aos autores que são de conhecimento geral) perceberam a sua dimensão primitiva, simbólica, que surge do próprio sentimento do homem que se maravilha com o conjunto da existência. Não há como contemplar uma vasta paisagem, ou ver a força de uma tempestade que se aproxima, apenas para citar alguns exemplos mais óbvios, sem experimentar essa religiosidade inata. No entanto, essa é uma religião sem culto, sem mestres ou sacerdotes, sem seguidores e onde cada um é responsável pelos próprios rituais. O único templo e a única coisa sagrada é a natureza, seja ela externa ou interna a nós.
As religiões surgiram certamente desse sentimento primitivo e básico, mas são, primeiro, uma tentativa canhestra de sistematizá-lo e, depois, uma tentativa (geralmente bem sucedida) de canalizá-lo em proveito de um determinado grupo. Sobre algo extremamente simples, criam-se inúmeras teorias extremamente complexas que, dizendo "aproximar o homem de deus" ou dos deuses, o que fazem, realmente, é afastá-lo da noção do divino e do sagrado. A sistematização, a criação de "religiões" sobre a idéia inicial da religião, ou da religiosidade, portanto, tem um único objetivo (mesmo que inconsciente): tornar o religioso manipulável.
Ninguém manipula o por-do-sol, ou a tempestade, ou a ternura que sentimos ao olhar um filhote que acabou de nascer, coisas que nos remetem ao religioso que há em nós. Há de se criar, então, cosmogonias, espíritos e deuses. Há de se inventar mestres, sejam eles um príncipe que se torna asceta, um carpinteiro que vira pregador ou alguém que conversa com os espíritos. Estes são manipuláveis. Deles se pode dizer que fizeram isso ou aquilo, que disseram tal e tal coisa, e principalmente, que determinaram aos homens que ajam de uma certa maneira. O que era religioso e inerente se torna, então, artificial e uma eficiente forma de controle.
Ocorre que, quanto mais complexa e multifacetada uma sociedade se torna, mais variados e mais fortes precisam ser os seus mecanismos de controle. Pierre Clastres já atribuía a necessidade do Estado a um determinado limiar demográfico. Conforme o cidadão comum vai se afastando dos meios de produção e da própria compreensão dos mecanismos que regem a sua sociedade, mais ele tende a precisar de meios de controle que restabeleçam a sua conexão com a realidade. Exagerando o exemplo, nos dias de hoje não há conexão real entre a carne e o boi, entre o ovo e a galinha, entre a fruta e a árvore: enquanto os primeiros estão vinculados ao saco plástico, à embalagem, os outros fazem parte de algo que não é cotidiano. As cadeias naturais se romperam e prospera o que é artificial. Se não sabemos ao menos de onde vêm o que se come, sendo necessário acreditar na sua procedência, imagine então se podemos deixar de acreditar no que nos dizem sobre a nossa própria procedência! Se o cidadão que vive na grande cidade é obrigado a acreditar na existência de coisas que ele nunca viu, como o boi, a galinha ou a árvore, ou em coisas que organizam o que ele nunca viu, como a granja, o frigoríco ou o pomar, ou ainda em coisas completamente abstratas, que regulam o que ele nunca viu, como o Ibama, a Sunab, o Governo, como ele pode deixar de acreditar em alguma das miríades de seitas que procuram, igualmente, organizar, regular e dar existência concreta à sua religiosidade?
Até aqui, temos "as religiões" como organizadoras de um mundo subjetivo e inerente a cada um de nós, o que já lhes confere força suficiente para existir e se multiplicar. Agora, e se o substrato social se encontra abalado? E se o acesso ao boi, ao ovo e à fruta, mesmo que através do supermercado e sob a proteção do Governo, passa a ser escasso, ou privilégio de alguns em detrimento da maioria? Temos a crise, onde a ordem acaba por se subverter e os meios, mesmo ilícitos, para se obter o acesso àqueles bens, se multiplicam.
A crise espiritual acompanha, certamente, a crise material. O acesso ao divino, mesmo que através do templo e sob a proteção da Religião, passa a ser também encarado como privilégio de poucos, e surgem inúmeras alternativas, que prometem dar a todos, democratizar, o que se tornou raro e escasso. Multiplicam-se os vendedores de milagres, contrabandistas da fé, cada qual com a sua própria explicação esdrúxula e cheio de promessas vãs, enquanto engordam o bolso sob a égide do desespero alheio. E, se "as religiões" já eram uma forma de controle, agora elas se multiplicam e se tornam válvula de escape e poço sem fundo.
Note como as crenças se multiplicam em tempos de crise... Durante séculos os gregos nada tiveram além de uma religiosidade difusa, repleta de divindades locais e nenhum tipo de religião organizada e centralizada. Em tempos helênicos, quando as cidades-estado caíam sob o poder imperial, eis que se multiplicam as visões religiosas e místicas, através dos filósofos. Durante séculos, igualmente, os romanos nada tiveram além de uma difusa religião dos antepassados e um culto aos fundadores, na qual cabia com tranquilidade deuses agregados de povos que se incorporavam ao "Império" ou eram conquistados. Quando os valores tradicionais decaíram, os imperadores sucederam aos cônsules e ao Senado, primeiro generalizou-se um culto ao imperador. Posteriormente, quando o próprio Império começou a ruir sob uma sucessão de imperadores pervertidos e incapazes, os credos se multiplicaram e perderam as bases próprias, importando do oriente um Mitra guerreiro e um Jesus helenizado. Durante mil anos, após o fim do Império Romano, o cristianismo imperou absoluto na Europa. As comoções sociais que acompanharam o fim da Idade Média foram suficientes para criar inúmeras dissidências reformistas.
As miríades de seitas que temos, hoje em dia, são igualmente fruto de um processo que se iniciou há pouco mais de um século. O caminho para a espiritualidade no Ocidente, já extremamente artificializado por aquilo que se tornou o cristianismo ao longo dos séculos (e não que ele fosse "bom" ou "natural" no início), deu margem para o surgimento de várias "alternativas", que podem parecer distintas no particular, mas que são semelhantes no geral.
Observe que nenhum dos sistemas religiosos ou místicos que se implantaram no Ocidente difere grandemente de um arcabouço bem particular. Em primeiro lugar, existe sempre uma hierarquia bastante rígida: no topo está deus, ou os deuses, secundados por algum tipo de "seres superiores", que podem ser "mestres ascencionados", "espíritos de luz" ou coisa que o valha, que se dirigem aos simples mortais geralmente através de intermediários humanos, sejam eles "sacerdotes" ou "médiuns". Existe sempre a premissa de que é possível ao simples mortal ascender nessa hierarquia. A forma de ascensão é sempre através da resignação, da mansidão, do "desapego aos valores materiais".
Ora, a mensagem subliminar (e às vezes nem tanto) de todas essas doutrinas é sempre a mesma: a hierarquia e os "seres superiores" existem mesmo no além, os privilégios também, uma vez que só alguns conseguem se comunicar com eles, e a única forma de se conseguir alguma coisa é ficando quietinho, bonzinho e resignado. Despreze os valores materiais, não se revolte se você não tem dinheiro, educação ou comida, pois aquilo que você não tem agora você vai ter "na outra vida". Aliás, os que hoje têm muito, na "outra vida" vão sofrer. Essa é a mensagem de católicos, protestantes, teosofistas, espíritas, budistas mahayanas e qualquer outra coisa que você puder nomear, que fale em paraíso, julgamento final, ou em reencarnação, "evolução espiritual", e assim por diante! Isso é "religião"? Não! Isso são "as religiões": uma forma de manter o povo quieto, crente e sob controle, no âmbito geral, e uma maneira de obter poder pessoal, no âmbito particular, quando os líderes religiosos se proclamam donos da "única verdade" e incitam seu grupo contra os demais.
Nota-se que uma coisa que absolutamente não há, portanto, é a "única verdade". Seria mais coerente se falar em "única mentira", com variantes múltiplas e nomes os mais diversos.
Finalizando, creio que não seria popular, hoje, no Ocidente, uma doutrina que dissesse o seguinte: "não existe deus ou deuses, não há nenhuma hierarquia celeste, não existem fenômenos paranormais nem milagres, não há comunicação com os mortos simplesmente porque não há outra vida. Depois que você morrer, acabou. Não se iluda achando que o 'outro lado' vai ser melhor do que esse, porque não há outro lado. Lute aqui para conseguir o que você quer. A única maneira do homem conhecer alguma coisa sobre a origem da vida ou do universo é através da ciência... portanto, se você tem intenção de aprender, estude. Se você nasceu aleijado, você não está pagando por pecado nenhum, isso foi um simples acaso, portanto, procure tirar o maior proveito possível da sua vida, mesmo com a deficiência. Se você ficou aleijado, isso não foi nenhum castigo, portanto, idem o anterior. Não existe magia; se você não correr atrás do que você quer, você não vai conseguir nada. Se existe desigualdade social, isso não faz parte do plano divino para a sua evolução espiritual, portanto, vá a luta e busque transformar a sociedade, seu otário!"


